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PORTO ALEGRE RECEBE AGNÈS VARDA EM UMA EXPOSIÇÃO SOBRE FOTOGRAFIA E CINEMA

PORTO ALEGRE RECEBE AGNÈS VARDA EM UMA EXPOSIÇÃO SOBRE FOTOGRAFIA E CINEMA
Divulgação: Fundação Iberê Camargo
Brunna Graco4 min de leitura

Talvez seja impossível entrar em uma exposição de Agnès Varda e sair olhando para as coisas exatamente da mesma maneira. Em suas fotografias, um olhar, uma sombra, uma linha ou um gesto aparentemente pequeno podem se transformar em uma porta para conhecer um lugar, uma cultura ou uma pessoa. É nesse encontro entre o cotidiano e a construção de uma imagem que “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema” encontra sua força em Porto Alegre.

Agnès Varda nunca pareceu muito interessada em escolher entre fotografia e cinema. Para ela, uma coisa sempre parece ter levado à outra. Observar, enquadrar, esperar, encontrar uma pessoa, uma paisagem ou um instante e transformar aquilo em imagem. É justamente essa relação que a exposição “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema” apresenta em Porto Alegre. Realizada pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a Fundação Iberê, a mostra reúne cerca de 200 fotografias produzidas por Varda, principalmente entre as décadas de 1950 e 1960, muitas delas pouco conhecidas ou inéditas. Varda, nascida em 1928 e morta em 2019, ficou mundialmente conhecida por sua trajetória no cinema e por sua ligação com a Nouvelle Vague.

Antes disso e durante toda a sua carreira, a fotografia já ocupava um lugar central em sua maneira de perceber o mundo. A exposição permite justamente inverter um pouco o caminho mais conhecido: em vez de olhar para a fotógrafa através da cineasta, somos convidados a olhar para a cineasta através da fotógrafa.

A exposição tem curadoria de João Fernandes e Rosalie Varda, filha de Agnès Varda, com assistência de curadoria de Horrana de Kássia Santoz. O projeto foi concebido pelo Instituto Moreira Salles, pelo Institut pour la Photographie e pela Ciné-Tamaris. O recorte curatorial aproxima a produção fotográfica da artista de sua obra cinematográfica e percorre diferentes momentos de sua trajetória, incluindo registros realizados na China, em Cuba, na França, em Portugal e nos Estados Unidos. A seleção também evidencia temas que atravessaram seu trabalho, como as condições de vida de mulheres e crianças, questões raciais, desigualdade social e movimentos de emancipação política e social.

O que mais me chamou atenção na exposição foi a maneira como os olhares presentes nas fotografias pareciam funcionar como portas de entrada para o universo particular de cada cultura que Varda encontrou pelo caminho. Não era necessário conhecer previamente aquele lugar para sentir que havia alguma coisa acontecendo dentro da imagem. Bastava olhar.

Varda encontrava nas situações mais cotidianas elementos capazes de contar histórias inteiras. Linhas, sombras, gestos, corpos, arquitetura e pequenos acontecimentos pareciam assumir a função de apresentar cada lugar sem precisar de uma única palavra. A fotografia não precisava explicar aquela cultura. Ela simplesmente nos colocava diante dela.

E talvez esteja aí uma das características mais fascinantes de seu trabalho: a capacidade de transformar o banal em construção imagética. Uma dança local, um gesto espontâneo, uma pessoa atravessando uma rua ou até mesmo uma jovem entregando flores a um policial poderiam se transformar em uma espécie de síntese visual do lugar onde aquela cena acontecia.

Não se tratava apenas de registrar o que estava diante da câmera. Varda parecia observar as relações entre as pessoas e o espaço, esperando que alguma coisa acontecesse dentro do enquadramento. O gesto se tornava narrativa. A sombra ganhava significado. Uma linha podia conduzir o olhar. Um rosto podia abrir uma história. Essa maneira de olhar também ajuda a entender por que seu trabalho continua alcançando públicos tão diferentes. Durante a visita, chama atenção a presença de pessoas de idades variadas, de adolescentes a idosos, encontrando alguma forma de conexão com aquelas imagens.

Existe algo particularmente interessante nisso. Varda tinha uma linguagem própria, mas não parecia construir imagens para um único tipo de espectador. Seu trabalho consegue conversar com pessoas que talvez estejam chegando pela fotografia, pelo cinema, pela cultura ou simplesmente pela curiosidade.

E existe ainda uma outra dimensão de sua personalidade que atravessa a exposição: sua própria imagem virou parte de sua obra. Seu corte de cabelo, tão característico, tornou-se uma espécie de assinatura visual. Mais do que uma característica estética, ele passou a fazer parte do imaginário criado em torno da artista. Pessoas que conheceram seu trabalho chegaram a reproduzir o corte de cabelo de Varda como uma forma de identificação e encantamento com aquela figura tão peculiar. É difícil separar Agnès Varda de sua própria presença. Ela não está apenas nas fotografias que fez, mas também na maneira como construiu sua identidade, sua estética e sua relação com o público.

Como fotógrafa, saí da exposição pensando especialmente sobre isso: quantas histórias podem caber em um gesto que dura apenas alguns segundos? Quanto de um lugar pode ser revelado por uma sombra, uma linha ou pelo encontro entre duas pessoas? Varda parece responder a essas perguntas sem necessariamente respondê-las. Ela simplesmente olha. E, ao olhar, encontra pequenas situações capazes de dizer muito sobre o mundo.Talvez seja justamente por isso que suas fotografias continuem tão vivas. Elas não dependem apenas daquilo que aconteceu diante da câmera. Dependem também de quem está olhando.

No fim, talvez uma das maiores provocações de Agnès Varda seja justamente essa: lembrar que fotografar não é apenas registrar um lugar. É encontrar uma maneira particular de enxergá-lo.

E, quando esse olhar encontra o público, uma fotografia deixa de ser apenas uma fotografia. Ela vira uma porta.

Fotografia AGNÈS VARDA Cinema 📍 Fundação Iberê, Av. Padre Cacique, 2000, Porto Alegre 📅 12 de setembro de 2026 a 28 de fevereiro de 2027 🕑 Quinta a domingo, das 14h às 18h 🎟️ Às quintas-feiras, a entrada é gratuita.

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Atualizado há 3 minutos

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